Sobre acordar e não ter café pronto

23 Dec

A chocante descoberta de que roupas não se lavam magicamente foi um dos primeiros sinais de que a vida não seria mais a mesma, na semana em que minha mãe se mudou para outra cidade após ser transferida pela empresa em que trabalha. A segunda realização, igualmente dura, é que a casa só fica arrumada e habitável se ninguém bagunçar e se for cuidada todos os dias.

Na hora das refeições, os piores medos se confirmam: Comida congelada enjoa, depender de delivery é estressante, comer lanche na hora do almoço mais ainda, comer na rua dá preguiça. O jeito é aprender a cozinhar e enfrentar uma série de “fora do ponto”, “ruim”, “queimou”, “aparência horrível” e se contentar com “dá para comer”. E sempre torcendo para aparecer algum almoço na casa da avó, ou uma coletiva de imprensa com coffee break no meio da semana. Pobre daqueles que resolvem me fazer uma visita, que precisam rezar para o botijão de água estar cheio e ainda passam fome, pois a geladeira e a dispensa estão sempre vazias.  Quando resolvo ir ao supermercado, ainda esqueço de comprar itens essenciais, como açúcar e ovos.

Outra coisa é importante é que existe uma infinidade de coisas ruins que podem acontecer com qualquer ser humano a qualquer hora do dia, então é bom estar preparado. Deixar dinheiro, remédios, telefones e tudo isso sempre estrategicamente acabam sendo parte fundamental da tranquilidade do dia-a-dia.

O que nos leva a mórbida realidade de que, se eu morrer, ninguém vai perceber. Minha mãe e meu namorado vão ligar e eu não vou atender, e eles provavelmente vão achar que eu estou dormindo ou esqueci o celular no silencioso. Se algum vizinho tocar a campainha, vai supor que eu não estou em casa. Basicamente, vão ser necessários uns bons dias até que a situação seja considerada preocupante o suficiente para alguém resolver arrombar a parte e se deparar com meu corpo sem vida e as minhas gatas desesperadas (pela falta de comida, no caso).

Varrer a casa, cuidar dos gastos, jogar o lixo fora, controlar o uso da energia, trocar lâmpada. Resumidamente: “resolver coisas”. Tudo isso culmina na felicidade sem tamanho que toma conta de mim quando a minha mãe vez visitar em alguns fins de semana, só para fingir que nada disso me abala, que já me tornei uma adulta responsável e que não faço a mínima ideia do porquê dela me ligar cinco vezes por dia perguntando se está “tudo sob controle”.

Não tem nada na Avenida Caxangá

23 Jul

Eu tenho uma prima que veio de São Paulo para nos visitar pela primeira vez. O pai dela, irmão da minha mãe, mora lá já faz mais de 20 anos e desde então nunca voltou para a cidade natal.

Achei engraçado quando ele ligou perguntando se a filha já tinha ido à Avenida Caxangá. Ele, que já tinha pedido fotos da Conde da Boa Vista, falou pra ela não deixar de ir nesses lugares e contar para ele como foi. Quando ela me disse isso, minha reação foi imediata:

“Mas lá não tem nada pra ver, tipo nada mesmo”

Acontece que eu passo pela Caxangá quase todos os dias. E se um dia eu ficar 20 anos longe de Pernambuco – o que eu espero que nunca aconteça – é de lá que eu vou lembrar. Não é da Torre Mallakoff, Marco Zero ou Alto da Sé, lugares que amo. Mas da Caxangá, da Conde da Boa Vista, a praça do Derby, da Federal, da Conselheiro, da Avenida Recife. De passar pela praia de Boa Viagem indo para o trabalho de manhã com um solzão e a vontade de largar tudo e aproveitar o dia. De ficar em casa vendo filme dia de sábado sem nem se importar com a vista da janela e ainda reclamando do calor.

Da rua da Amizade, de me perder indo pra casa da minha madrinha em San Martin, de me perder indo pra qualquer lugar pela primeira vez. De ir em Olinda e achar tudo lindo e me sentir uma turista, de alugar casa de praia na praia da moda (Itamaracá, quem nunca?). De ir no maior Aeroporto do mundo (dizem), na maior avenida da América Latina, na maior casa de shows, maior shopping, do estado mais megalomaníaco da história desse país.

Eu sentiria saudade do cuzcuz que minha mãe faz no jantar, da tapioca que a gente compra na frente de casa, do feijão da minha avó.  Do barzinho da esquina que tem caipirinha barata, do restaurante vegetariano perto da faculdade, do bolo de rolo da padaria, de sopa com pão, de dizer que uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor mesmo odiando cerveja.

O clone de temaki do Vintage em dia de quarta-feira, do Gentleman’s dia de sexta tocando as mesmas músicas de sempre, de ficar na frente do Burburinho. Do Ponto do Açaí, do Sítio da Trindade, de ir em Casa Forte e achar o melhor bairro de todos. Eu ia querer saber até como anda a praia de Candeias, que é o último lugar antes do fim do mundo.

Eu lembraria do shopping Recife parecendo um formigueiro em dia de domingo e véspera de feriado, do calor até em dias de muita chuva, dos jogos do Sport com meu pai e meu irmão. Do Cinema São Luís na infância, de ir na Fundação, do caldinho de feijão na praia, de dudu de uva, de levar biscoito Treloso e suco Kapo pra escola, ou salgadinho Pipos e toddynho. De ficar feliz no São João porque tem canjica, pé-de-moleque e milho cozido, mesmo podendo comer essas coisas o ano inteiro.

Muita coisa deve mudar e eu ainda devo formar muitas outras lembranças, mas tomara que eu nunca fique 20 anos longe daqui.